o dia que eu conheci o Tom Zé (acho)

Uma noite o Tom Zé estava dando um show de graça em Curitiba, e eu não fui porque não conheço muito, preferi encontrar com o pessoal pelas ruas do centro. Com todo mundo cansado, a noite foi mais um fracasso.

Eu e uma amiga tentamos ir comer no chinasky (pronúncia: xinaski), mas eles só fazem kibe cru na quinta – era um sábado. Ok, fomos para outro lugar, que é bem pequeno e uma mesa fica bem perto uma da outra, ótimo lugar para mal-entendidos. Ah sim, o cara da sanfoninha estava lá, eu e as minhas amigas tentando tirar sarro sem ele perceber, todo aquele momento mágico.

Então um senhor, que estava na mesa ao lado da nossa, chamou a nossa atenção:

-Oi! Vocês estão falando de mim?!

-…não.

-ah, ok, desculpa.

Trocamos olhares de “que velho babaca”, e continuamos a conversa, a comida e a troca de lembranças sobre o sanfoninha. Depois de um tempo, o mesmo senhor nos chamou de novo:

-Oi! eu tenho uma coisa aqui para vocês!

Ele tirou uma gaita do bolso, tocou uma nota infinita de um agudo capaz de fazer os ouvidos sangrarem até reparar na minha cara de julgamento extremo.

-Desculpa, vocês merecem muito mais.

-É, eu tô sabendo.

Ele ficou sem graça, riu, pediu desculpas, e nós fomos atrás de algum bar aberto. Na entrada para algum deles, chega uma amiga falando do show do Tom Zé. Eu viro para a minha amiga, ela vira pra mim, e talvez nós tenhamos topado com o Tom Zé por Curitiba. Ou talvez fosse só mais um velhinho louco do centro.

sobre eu morar sozinha #1 e #2

#1

Depois de uma semana em que eu perdi as minhas chaves, meu celular, minha carteira e a minha dignidade numa festa, fui pegar meus tênis que deixei secando na área comum do prédio e não os encontrei. Olhei por toda a minha casa e só podia achar que foram roubados. Mandei um e-mail para os donos, que repassaram para todos do prédio e, à noite, eles me chamaram para ver as imagens das câmeras de segurança.

Chegando lá, vimos todos juntos as imagens minhas recolhendo um monte de roupas e colocando os tênis junto.

 

#2

A porta da minha área de serviço emperrou, chamei o zelador/mecânico/encanador do prédio para ver, mas ele só ia poder ir no dia seguinte. Ele chegou lá, minhas roupas ficando velhas lá dentro da área de serviço fechada, tirou uma pedra de baixo da porta e a abriu perfeitamente.

o rolê errado que eu consolei um cara no motel

Começando a semana dos rolês errados,um caso emblemático que se passa no Rio de Janeiro.

Era aniversário de uma amiga e eu estava super empolgada pra pegar uma balada, recém solteira e solta na pista.

No esquenta da casa dela,eu já fiquei de olho em um menino de São Paulo, que estava bebendo quantidades absurdas de álcool, tinha barba por fazer, tacava fogo em drinks, falava coisas inapropriadas, meu tipo de homem.

Fomos pra balada, todo mundo já feliz, e eu lembro de dançar com a muleta de um dos meninos, ficar olhando as projeções estática e de discutir com uma menina se a gente pegava o paulista ou se a gente se pagava. Infelizmente pra menina, minha pira não é essa. Acabei pegando o cara.

No desespero, saí perguntando pra todos os meus conhecidos no RJ por mensagem, às 4 da manhã, se eles sabiam de motel ali perto. Uma amiga passou o nome, fomos pra lá na indicação dela, pegamos o quarto, todo o trâmite. Dividimos um táxi com a aniversariante e o peguete dela, já que todo mundo ia pro mesmo lugar.

Chegamos no quarto e o menino, que tinha bebido muito, não conseguia realizar a função. Tentei, tentei, tentei, até que ele começou a chorar e me pedir desculpas. Eu queria ir embora, mas tinha que esperar a minha amiga. Acabei dormindo, o menino que estava comigo se questionava por quê bebeu tanto e eu já não conseguia me importar. Daí venceu o período, encontrei com a minha amiga na recepção com cara de bunda só comparável à minha, e quando saímos atrás de um táxi, ela sussurra pra mim:

-acredita que eu vim até aqui pro cara brochar?

o cara que não me comia (1 de milhões)

Esse dia se tornou um clássico entre os meus amigos.

Eu estava ficando com um menino que, até o momento, era muito fofo, querido, eu ignorava o fato dele ser gay e tudo mais. Mas ele não estava interessado em sexo comigo  – novamente, eu e meus amigos que não moravam em Florianópolis ignorávamos o fato dele ser claramente gay.

Um dia teve um happy hour do curso e ele estava ajudando. Daí acabou a escala dele, e eu falei pra gente dar uma volta. Ele disse que não podia, que a galera podia precisar dele, e ficava sempre ao redor do bar.

Eu fiquei no happy hour até acabar, o menino ajudar a desmontar a estrutura, enquanto na minha cabeça só tocava Valesca. Bom, sendo happy hour de RI, deveria estar tocando de fato. A questão é que eu não iria voltar pra casa sem transar.

Esperei, ele ficou até o momento que todo mundo já tinha ido embora, verificou se todo mundo tava indo embora mesmo, tava quase levando as pessoas até os seus carros e eu esperando.

Finalmente ficamos sozinhos e eu comecei a dar ideia de irmos para qualquer canto isolado da universidade. Ele olha pra mim como quem vê uma prostituta que transa com o filho por pedra e manda num bom manézes:

-tu tais achando que aqui é Amsterdã?

Voltei para casa no zero a zero, um karma infeliz visto que nunca deixaria isso acontecer com alguém que eu pegasse com frequência.

o dia que resolvi fazer pilates

Sabe quando você começa a ir na academia e fica se sentindo culpado porque tá pagando um plano com mil aulas inclusas e não faz nenhuma? Resolvi testar todas uma vez.

Comecei com pilates. Uma colega de trabalho falava todo dia, de manhã e quando a gente ia almoçar, que “pilates é bom para a libido da mulher”. todos os dias. Quase dei um vibrador de presente no aniversário dela.

Resolvi fazer o pilates-que-é-bom-pra-libido-da-mulher. A aula começou bem no estilo de yoga, todo mundo respira fundo, solta a tensão, a professora diminui as luzes, daí ela manda todo mundo ficar de quatro.

Já tentando controlar a sexta série dentro de mim, resolvi que iria fazer com a mente aberta. Então a professora me ensinou (ótimo timming, professora) a respiração. Tem que ser diafragmal, eu poderia colocar a mão na barriga nas primeiras aulas, mas era pra sentir o abdome pulsando, além de inspirar e expirar pela boca. ok.

Quando começou o exercício, eu fiquei visivelmente constrangida. A tal respiração, para quem já fazia pilates-bom-pra-libido emitia um som de “ah, ah, ah”.

Passei uma hora com a bunda pra cima numa sala à meia luz com umas dez mulheres em posições sexuais fazendo respiração de transa. Se isso melhora a libido da galera, melhor desistir desse negócio de homem, caras.

o dia que corri do vizinho afim de mim

Era verão de 2004, eu estava na praia com a minha família, curtindo os programas curitibanos de praia: ficar em casa jogando baralho porque está chovendo em toda a faixa litorânea.

Então eu notei o vizinho, que não era nada mal. Comecei a conversar com ele, até porque não tinha como ir pra praia, e notei que o menino era muito burro.

Falei pra uma prima minha que não dava. Ela prontamente não entendeu, já que ainda não sabia da gravidade da burrice do cidadão. Voltamos ao baralho e à brincadeira de dar tapa quando vira a carta que você fala (uma maneira socialmente aceita de bater nos parentes).

Então o menino apareceu no muro:

-oi, vocês estão jogando dominó?

-não, é outro jogo?

-baralhos? eu adoro baralhos! eu sempre jogo aquele de fazer dupla de carta igual, vou aí ensinar para vocês.

Nessa hora, eu já devia estar trancada no quarto, escondida embaixo da cama, na esperança dele achar que eu era uma alucinação. Graças à minha atitude muito madura, ele saiu de perto.

No outro dia, eu fui andar pela praia. Só andar, e de roupa, porque depois da chuva vem o frio. Estava lá, curtindo a paisagem, quando vejo que o vizinho pediu pros pais dele encostarem o carro e veio caminhando na minha direção. Eu calculei a distância até em casa e resolvi fazer um cooper até lá, só que correndo como se estivesse para ser esquartejada.

Quando você faz isso, a sua família tende a achar que você realmente estava para ser esquartejada. Expliquei que não, que era o vizinho, e todo mundo estranhamente me entendeu.

Mas o moço era insistente. Nessa noite, me chamou no muro e disse que precisava falar comigo urgente. Eu cheguei perto, ele me olhou de forma sedutora e disse “oi,eu queria saber se você sabe como remover riscos de um CD”.

Até as minhas primas ficaram com vergonha do menino.

o senhor dos anéis lá e de volta outra vez

Volto ao assunto “meus problemas com senhor dos anéis” porque lembrei de um momento incrível com o aficionado pela série que eu já falei antes.

Um dia, estava eu e o tal menino na casa dele, e eu comecei a ver que livros ele tinha. Incrivelmente, a prateleira de livros dele eram vários livros baixinhos e, nomeio, como se fosse destaque, os três volumes de senhor dos anéis.

Ele chegou perto de mim e começou com o papo sobre como eu precisava ler os livros, que se eu lesse o primeiro, ia querer ler os outros. Expliquei que não ia rolar, não ler senhor dos anéis era parte da minha personalidade e de como eu me entendo como ser humano no nosso meio, e então ele pegou um dos livros.

Eu não sabia se ele ia me dar o livro, arremessá-lo na minha cabeça ou ler em voz alta para mim. Foi a terceira opção.

-Livro um:lá e de volta outra vez.

-sério, você vai ler esse livro para mim?

-não, só quero te mostrar uma coisa.

E apontou para a orelha de livro. Eu não entendi o que eu deveria procurar, então ele falou com o maior orgulho do mundo, como se o Tolkien fosse pai dele:

-O mundo se divide entre as pessoas que leram e as que não leram Senhor dos Anéis.

Eu fiquei parada, olhando para ele. Eu deveria ficar triste por ser parte do segundo grupo? Eu estava ok com isso. Depois de um dois segundos de silêncio, ele completou:

-Sério, você continua sem vontade de ler?